
De todos os momentos de entrega e dedicação, tudo que agora se vê são cacos. Toda a confiança incondicional que aquele amor intocável fazia jorrar como a fonte inesgotável de doçura pura ruiu. Todo fulgor do caminho acompanhado pelo suporte e encorajamento do mais admirável e altruísta cambiar de vida, agora não passa de uma lembrança doída de um sonho puro, que a realidade fria e egoísta esmagou e despedaçou sem o menor pudor. Longos e muito árduos sempre foram todos os passos da vida. Como uma saraiva de desprezo e desrespeito, sempre estiveram por perto a incompreensão e a ignorância na tentativa incansável de puir toda e qualquer esperança que ainda resistisse no coração. E em momentos raros, porém certeiros, palavras simples e despretensiosas agiam como um escudo impenetrável, que sempre consolavam e reanimavam na certeza de que, apesar da longitude e dureza dos passos, solitários eles nunca foram. No olhar ao futuro incerto e assustadoramente duvidoso, havia sempre a coragem rejuvenescedora e firme que emanava da admiração profunda que circundava e permeava a todo instante. Nunca houve mancha que pudesse de maneira alguma denegrir, pois, como diz o Livro dos livros, o amor tudo suporta, tudo sofre, tudo crê... E foi assim que, a tudo suportando, tudo sofrendo e tudo crendo, num dia como um outro qualquer, a frieza tomou ocasião por oportuna insignificância ordinária. Num relance, abortivamente despejou-se a tortura do traído manifesta em egoísmo falsificador de verdades, e tão furioso foi o avassalador turbilhão das feridas na alma, que não mais se viu lugar para qualquer cura. Todo o passado contínuo encontrou interrupção no passado longínquo, e tudo que era para sempre se rompeu em vazio ventre, trazendo outro rumo, o mais temido de todos, para se estabelecer como verdade crua, como a de um cão a vaguear na rua, que já nem mais se significa o abandono, pois há muito se “des-semantizou” o seu dono.

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