Quem me dera fosse minha voz como um trovão, e minhas palavras como os raios, pois de tal maneira cruzariam num instante todos os céus, e neles se fariam por tudo todos ouvidos.
Que minhas lágrimas fossem a tempestade, e meu pranto a furiosa tormenta, que a todos alerta a calamidade e à atitude fomenta.
Que meu sentir se fizesse como o mais puro incenso a subir diante dEle a todo instante, lhe fazendo menção contínua do viver de um certo errante, que apesar de todo desvio, está com a vida por um fio, sempre lutando contra o coração vazio, e o sentimento frio, almejando sempre se achegar e mais conhecer, se apaixonar e nEle crescer, para ouvir e realizar sempre o seu querer. O qual depois de morto o sonho, abraçou-se dEle tão risonho, deixando para trás tudo que era precioso, para ser somente um entregue não receoso, e se alimentar alegremente, dos verbetes viventes, criadores de toda vida e detentores de toda graça e poder imensurável daquele que é incontestável.
Muito precioso seria aquele segundo, no qual se deixaria para trás inteiro o mundo, e para se gravar na eternidade, me lançaria ao seu estrado, e ali tão exposto e conhecido, tão pequeno e tão prostrado, me esvairia toda a essência, por lágrimas e tremores de confidência, a nada esperar de sua graça, nada querer de sua glória, senão apenas ali estar, e nunca sair, ali ser, e nunca cair, somente dar o que for aceito, oferecer o que é seu por direito.
E visto que do próprio amor aqui se fala, o que mais poderia se aduzir à sua presença, senão aquela própria jóia abnegada, que se doa sem nenhuma penitência, e consuma e satisfaz seu desejar em apenas a Ele se lançar?
Multiplicados fossem todos os salmos, mórbida ainda seria sua insuficiência, vaidade ainda seriam todos os palmos, para tentar se descrever a indizível sentida por Ele carência...
Tuesday, October 17, 2006
Thursday, October 12, 2006

De todos os momentos de entrega e dedicação, tudo que agora se vê são cacos. Toda a confiança incondicional que aquele amor intocável fazia jorrar como a fonte inesgotável de doçura pura ruiu. Todo fulgor do caminho acompanhado pelo suporte e encorajamento do mais admirável e altruísta cambiar de vida, agora não passa de uma lembrança doída de um sonho puro, que a realidade fria e egoísta esmagou e despedaçou sem o menor pudor. Longos e muito árduos sempre foram todos os passos da vida. Como uma saraiva de desprezo e desrespeito, sempre estiveram por perto a incompreensão e a ignorância na tentativa incansável de puir toda e qualquer esperança que ainda resistisse no coração. E em momentos raros, porém certeiros, palavras simples e despretensiosas agiam como um escudo impenetrável, que sempre consolavam e reanimavam na certeza de que, apesar da longitude e dureza dos passos, solitários eles nunca foram. No olhar ao futuro incerto e assustadoramente duvidoso, havia sempre a coragem rejuvenescedora e firme que emanava da admiração profunda que circundava e permeava a todo instante. Nunca houve mancha que pudesse de maneira alguma denegrir, pois, como diz o Livro dos livros, o amor tudo suporta, tudo sofre, tudo crê... E foi assim que, a tudo suportando, tudo sofrendo e tudo crendo, num dia como um outro qualquer, a frieza tomou ocasião por oportuna insignificância ordinária. Num relance, abortivamente despejou-se a tortura do traído manifesta em egoísmo falsificador de verdades, e tão furioso foi o avassalador turbilhão das feridas na alma, que não mais se viu lugar para qualquer cura. Todo o passado contínuo encontrou interrupção no passado longínquo, e tudo que era para sempre se rompeu em vazio ventre, trazendo outro rumo, o mais temido de todos, para se estabelecer como verdade crua, como a de um cão a vaguear na rua, que já nem mais se significa o abandono, pois há muito se “des-semantizou” o seu dono.
Thursday, October 05, 2006

Porque são os caminhos cruzados? Porque veredas que nunca sequer se imaginaram se tocam e se afetam? Quando foi determinado o curso de todas as coisas, qual terá sido o argumento que determinou que haveriam encontros e qual o propósito estaria por trás da tristeza dos desencontros?
Muitos se lançam ao apego de terem na conseqüência das perguntas as próprias respostas. Outros se gastam e se fadigam obcecados pelo objeto final de sua labuta infindável. Todos circundam a mesma morada de indagação no fim das contas...
Coisas tão pequenas e simples, atitudes corriqueiras e tão inocentemente cotidianas se mostram como portas abertas e pólos gravitacionais de novos cruzamentos e contatos posteriores aos superficiais. Superficialidades nunca satisfeitas com suas próprias brisas que seriam só para passar e não se importar mais de tão elas que são.
Portais se abrem e conduzem a novos planos dos anteriores caminhos. Não há novos mundos ou dimensões aqui, o que há são novas perspectivas das mesmas já citadas veredas, ou meramente um olhar mais acertado daquilo que aqui já se encontrava, mas não se via.
Muitos desses novos planos transcendem a própria vida, fazendo dela a água que se bebe quando se está com sede, mas que antes de vir a sede não se fazia dela sequer menção. São como a janela que se abre para que se veja o nascer do sol, mas que quando a grande estrela se põe a brilhar, tamanho é o encanto e o deslumbre extasiado da experiência de tal momento, que se ignora que se não fora aberta a janela, tal imagem de glória natural não se veria nunca.
Há porém também aqueles que se fazem frios, aqueles que iludem e confundem. Duros são os caminhos os quais se idealiza uma chegada ainda não contemplada, e no encalço de tal imagem de um sonho belo, lança-se à empreitada apaixonada de desbravar toda essa distância massacrante em prol daquele idealizado mito próprio. Mito este que, ao calcar os pés em todas as pedras e falhas de terreno tão hostil de tal caminho, começa a ruir e se desfazer em cálidas desilusões doídas no fundo da alma.
Dos primeiros não se fecha a porta. Dos últimos não se pensa em outra coisa. Nos primeiros se completa a vida, nos últimos se prepara para a mesma. Não há lugar para soberba nos primeiros nem para angústia e mágoa nos últimos, em ambos estamos vivendo. E se a vida sempre gera uma outra, certo é que para tal estamos aqui. Vivendo assim, estamos gerando, gerando estamos vivendo. Completo e equilibrado está o complexo ciclo dos caminhos, encontros e desencontros, pois seja um ou outro o modo, tudo é para a vida, e esta é e vem dAquele que a criou. O mesmo que sempre insiste em demonstrar que fruto do seu Amor são todas as coisas.

