
Não se torna o orvalho que da verde folha se lançou ao solo, como também não se enumera ou rejunta a areia que no vento esmorece. Aquilo que era já se foi, mas mesmo distante e remoto pode ainda estar. Assim como o caído ao solo orvalho entre os grãos da terra se espalha, imagens e ardores da melancolia se embrenham pelas frestas apáticas da memória, e como a terra umedecida, se besuntam os sentidos com os retornos daquilo que é já há muito findo. Acompanhando o desvairado vôo desordenado daqueles grãos perdidos de areia, estão palavras, sentimentos e imagens que o inconsciente clareia. Planam presentes, inexplicáveis, pela vida inteira.
Pêndulo não é apenas aquele que vai e retorna de um lado ao outro incessante em movimento, mas também aquele que pendurado preso se encontra retido à mesma contínua e repetida ação que o castiga e aprisiona, num repetir de mesmas coisas que num extremo parecem para o outro mortas, mas num momento a este torna, e àquele que se mostrava longe agora fere em proximidade intrínseca e morna.
Mensurável se faz o tempo apenas para aqueles que têm nele um limite. Este para muitos passa algoz e rápido marcando e doendo pela memória. Magnitudes inconcebíveis habitam a vultuosa História, demarcam e relembram a brevidade vaidosa com apatia mórbida.
Aquele que passeia por sobre o tempo, e no espaço enxerga poesia lúdica, é o único invisível alvo perfeitamente almejado pela completa entrega e querência do derramador de palavras melódicas da consciência transcendida. Quando afetado pela glória do sentimento supremo, qualquer inculto parafraseia a própria natureza em poesias mágicas, qualquer imundo assume num instante a nobreza casta da qual a adoração se basta, e assume a vida e o ser dAquele ímpar que compôs a Vida.
A pequeneza do submisso e sujeito ao imparável e o inalterável se desmancha em utopia crida, desbravando terrenos impensáveis de uma vida dúbia. O que se vive e o que sente se contradizem coabitando a mesma mente, ilustrando o mesmo sonho. Afetados pelos arredores físicos, porém infestado e possuído pelas palavras amorosas altas. Dá-se inquestionável ao proposto real desse impasse, confiado naquele Amor que sente e respira por ser este a nova e única essência de seu próprio ser, só se mira Aquele que se deu para que todos os sofredores dessa ambigüidade frívola virassem as costas para os seus limites, e a união plena e consoladora com o Sublime terminasse com a angústia insuportável de ter há muitas eras impensáveis e esquecidas, por uma vaidade fútil, se separado da majestosa ternura pura e insubstituível da real razão da vida.

No comments:
Post a Comment